“Há uma incoerência política…um turista não pode ser ambientalmente sustentável” no Alto Minho

Uma engenheira agrónoma de Jolda Madalena, em Arcos de Valdevez, lançou uma petição online a reivindicar mais e melhores transportes públicos nos concelhos do interior do país. Patrícia Pereira fala em “incoerência” nas decisões políticas que assumem territórios como Parque Nacional da Peneda-Gerês como destinos sustentáveis, mas que promovem o uso de automóvel por falta de alternativa no transporte público coletivo.

Com 29 anos, Patrícia frisa que precisa de ter carro para poder levar o filho todos os dias à creche. “Mas gostaria muito de educar o meu filho a ter comportamentos mais sustentáveis que inclui o recurso a transportes públicos. Mas o problema é que eles não existem. As paragens de autocarro têm todo tipo de informação, mas não têm um único papel a informar sobre horários dos autocarros”, lamentou Patricia que também tem um mestrado em ordenamento de território.

Patricia sublinha que a falta de transportes públicos não é exclusiva de Arcos de Valdevez, mas salienta a promoção que é feita do concelho como destino sustentável e apetecível sem serem dadas alternativas ao uso do automóvel. “Arcos de Valdevez integra o Parque Nacional da Peneda Gerês, é classificado como Reserva Mundial da Biosfera, tem Sistelo como Sítio de Interesse Nacional e tem ainda uma área muito grande de Rede Natura 2000. Além disso, é um território com Carta de Europeia de Turismo Sustentável. Mas um turista não pode ser ambientalmente sustentável dentro deste e outros territórios porque para vir para cá tem de usar carro. Há uma incoerência política na promoção destes territórios”, insurge-se, dando como exemplo o “boom” turístico do baloiço do Mezio. “Teve 25 mil visitantes que foram para lá como? A pé, de bicicleta? Não, foram de carro! Qual é a carga ambiental em cima deste território? E o mais curioso é que fecharam os parques infantis, mas abriram um baloiço para adultos irem lá brincar”, atirou.

“Os transportes públicos são importantes. Eles devem ser mais regulares, os cidadãos devem ter informação de quando passam, devemos investir na sensibilização e em incentivos à sua utilização. Eles ajudam o ambiente, diminuem a carga automóvel e logo resolvem problemas de estacionamento, são mais inclusivos e criam também postos de trabalho”, lê-se na petição online.

“Em países verdadeiramente desenvolvidos, ter carro e carta de condução é uma escolha. Mas nestes territórios é uma imposição, ou seja, quem não tem carro não consegue fazer nada.  Há muito tempo que se deixou de investir nos transportes públicos, apesar dos municípios quererem vender a ideia de turismo natureza e de turismo sustentável. É impossível a qualquer turista conhecer o interior de Portugal se não tiver um carro. Será que isto faz algum sentido?”, questiona Patrícia, lamentando que os transportes públicos só circulem nestes territórios em período escolar. “Mas há efetivamente muitas pessoas com essa necessidade e não são só os “velhinhos”.  As zonas de interior do país têm também outro problema relativamente aos transportes que é o facto destes só passarem na estrada nacional e não nos territórios de maior cota. No entanto, nesses mesmos territórios de cota, também residem pessoas e uma grande fatia que necessita igualmente (ou mais) que se cobram as suas necessidades pois fecharam os mercados e serviços de proximidade”, acrescentou, defendendo a implementação de “uma rede de serviços municipal e intermunicipal e permitisse uma mobilidade mais inclusiva, mais amiga do ambiente a mais económica para as famílias”.

Link da petição pode ser acedido aqui.

 

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