D. Afonso Henriques ou D. Teresa: Qual deles terá sido o primeiro monarca de Portugal?

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Rui Manuel Marinho Rodrigues Maia

Licenciado em História, Mestre em Património e Turismo Cultural pela Universidade do Minho

Afinal, será que foi D. Afonso Henriques o primeiro Rei de Portugal? Eis a derradeira questão. Os mais velhos e mofentos alfarrábios escolares apontam D. Afonso Henriques como primeiro Rei de Portugal (1140-1185). Porém, uma nuvem de ambiguidade paira sob essa verdade, quando se constata que há documentação que parece contrariar tais factos, como muitos manuscritos antigos presentes na Torre do Tombo. Na realidade, entre documentos régios e particulares que compreendem o período entre 1105 e 1126, como cartas de doação ou escambo, D. Teresa surge com o título de Rainha.

Tais documentos são provenientes de cartórios eclesiásticos de Coimbra, Viseu e Tomar, em que a mãe do intrépido D. Afonso Henriques surge com o título de “Tarasia regina”, quer isto dizer, Teresa Rainha. Alguma dessa documentação exibe o selo Real de D. Teresa, onde consta “Tarasia regina”, em redor da cruz de Cristo, a mesma cruz das armas do Condado Portucalense (cruz azul em fundo branco).

Todavia, a pergunta que persiste é a seguinte: será que o título de Rainha foi reconhecido internacionalmente? Tudo parece indicar que sim, uma vez que aos 18 dias de junho de 1116 o Papa Pascoal II emitiu a bula “Fratrum Nostrum” endereçada ao Bispo de Toledo, ao Bispo de Braga, ao Bispo de Tui, ao Bispo de Salamanca e à Rainha D. Teresa, mandando, após as queixas do Bispo de Coimbra, que fosse restituído à Igreja de Coimbra tudo o que lhe tinha sido extorquido, inclusive, a Igreja de Lamego, que fora atribuída à Igreja do Porto.

Teresa foi uma das destinatárias dessa bula, em que a Santa Sé a refere como “Tarasia regina”, subentendendo-a como governante de Portugal, tratando-se de um facto cabal atestado pela documentação coeva. Por outro lado, a própria bula faz referência aos Bispos Portucalenses, distinguindo-os dos demais Bispos da Hispânia, subentendendo, também, a existência de um território Portucalense. Assim, parece que a única coisa que faltou a D. Teresa foi efetivamente cunhar moeda. No caso de D. Afonso Henriques conhecem-se pouco mais de meia dúzia de moedas referentes ao seu reinado (1140-1185).

Contudo, também é verdade que D. Afonso Henriques, após a Batalha de S. Mamede, em junho de 1128, arrancou das mãos da sua mãe os destinos de Portugal, sendo investido – rex portugalensium – por vontade de Deus.