Opinião

Já é Natal dentro de ti?

 

Augusta Dantas

Quando chega o Natal eu volto a ser menina. Recuo no tempo de um modo incrível e, num abrir e fechar de olhos, voltam tantas sensações e imagens. Volta o arrepio no corpo pela humidade da adega onde todos os fins de tarde de Inverno descia agarrada à perneira das calças do meu pai para encher a caneca do vinho para o jantar. Voltam os pés humedecidos pelas galochas vermelhas ressoadas. Volta o roçar desconfortável dos collants grossamente caneladas nas pernas roliças. Volta o quentinho da capa de padrão xadrez escocês a embrulhar-me os ombros. Volta a frescura do ar envolvente que contrastava com o calor do hálito que formava desenhos esvoaçantes que rapidamente se desfaziam no ar. Volta o frio que salpicava de rosa as bochechas geladas e a ponta do nariz. Volta o tilintar inconstante do sino altivo, pendurado lá no cimo da fachada da casa, que em quadra festiva dava sinal da chegada dos visitantes pontuais e dos cantadores de Janeira. Sim, porque na província desse tempo, quem é de casa não bate à porta nem bate palmas, simplesmente entra. Entra e fica no coração.

Contudo, este ano está a ser mais desafiante fechar os olhos, abastecer-me de memórias e resgatar essa menina. Talvez ela esteja só do outro lado da porta à espera que eu abra. E eu ainda não fui espeitar. Talvez não me sinta ainda pronta para a receber devidamente. Sinto que preciso de limpar o caminho primeiro. Conhecem a sensação?  É que nesse caminho eu coloquei um sem número de tarefas e compromissos aos quais me comprometi colocar um ponto final até ao final do ano.  E talvez nesse compromisso comigo mesma tenham surgido outras questões que eu não vi chegar e que impedem a menina de entrar e o Natal de ser sentido com a mesma intensidade e com o mesmo amor, pelo menos para já.

Talvez a exigência – e às vezes até intransigência – comigo mesma, o medo de perder o foco e a consistência, a alteração da rotina diária que deixou de fora algumas coisas que me dão prazer e das quais escolhi abdicar por agora, o desafio por haver imensas coisas novas a aprender do zero, o pensamento de “será que serei capaz?” e a percepção de que o pensamento começa a ficar mais vezes acelerado e as acções desconcentradas e com mais falhas estejam a adiar esse viver o Natal dentro de mim.

E isso faz-me pensar na quantidade de vezes que nós não nos permitimos sentir e viver não só o Natal mas a vida com mais ligeireza, naturalidade e profundidade. Na quantidade de vezes que exigimos demasiado de nós e consequentemente dos outros, em que ficamos assoberbados em montanhas de tarefas que a certa altura acabam por desabar em cima de nós, em que não nos permitimos dizer “não” para não desiludir ou desagradar.

Em vez de colocarmos tanta pressão em cima de nós e tanta cobrança ou culpa perante as vezes em que simplesmente não cumprimos, talvez tudo fosse mais fácil, e fizesse mais sentido, se a certa altura nos focássemos na nossa intenção e perguntássemos a nós mesmos: “Mas porque faço eu tudo isto? Qual é a minha intenção?” E talvez as respostas que encontrássemos fossem surpreendentes. Ou não. Talvez até ouvíssemos de nós mesmos um “não sei”. E talvez essa simples falta de resposta mais concreta nos pudesse ajudar a reorganizar e mudar a rota desse nosso caminho. Ou talvez até percebêssemos que afinal é mesmo por aí que queremos ir, porque é aí que está a nossa voz, a mensagem que queremos partilhar com o mundo, a vontade de servir ao outro deste modo, o contributo que damos de volta à vida ou à sociedade e faz mover a máquina ou o universo, como lhe quiserem chamar.

E talvez nessa pausa para olhar para dentro, perguntar e ouvir a resposta que há em nós, esteja afinal a verdade que fará a diferença entre sentirmo-nos assoberbados por uma catrefada de tarefas e de emoções e a fantástica sensação de plenitude e realização que pode vir do cumprimento ( e às vezes incumprimento também!) dessas mesmas tarefas.

Talvez o reencontro com esse nosso propósito que cada um leva lá dentro nos ajude a ver a situação por um outro prisma e a relativizar tudo. Talvez se por vezes olharmos para dentro e nos voltarmos para fora de seguida, consigamos não estar tão auto-centrados e focados em nós e no nosso pequeno mundo. Talvez assim percebamos que há outros a sentir exactamente o mesmo. Outros que procuram compaixão, reconhecimento e conexão, tal como nós.

E essa aproximação e identificação connosco nunca se dará numa óptica de exigência e expectativa, mas sim de vulnerabilidade e de esperança.

Afinal aceitarmo-nos como somos e aceitar ver o outro como ele é pode ser um passo gigantesco para o Natal chegar.  Um passo de gigante para sentirmos Natal cá dentro. E isso significa aceitar todas as caixas que possam estar à frente do caminho a bloquear a entrada dessa menina que um dia fomos.

Talvez se eu for mais bondosa comigo mesma, a menina que há cá dentro, e que espera pacientemente do outro lado, consiga finalmente passar para o lado de cá. Talvez já sem caixotes de tarefas à frente ou talvez até com algumas desviadas para o lado, porque afinal até nem eram tão inadiáveis como isso. E talvez eu não queira adiar o Natal.

Talvez assim eu consiga voltar a esse mundo de memórias, emoções e sensações. Talvez assim volte a alegria pela chegada dos meus primos de Peniche que anualmente vinham para a Ceia. Talvez volte ansiedade pela descoberta da magia dos presentes do Natal. Talvez volte o fervilhar do azeite que parece cantar no forno a assar o bacalhau à moda da Celestinha. Talvez volte o cheiro indiscritível dos troncos de madeira queimada a crepitar no fogão a lenha. Talvez volte o ladrar animado dos sete amigalhaços caninos perante o som dos foguetes, tiros e loiças partidas a darem boas-vindas ao novo ano. Talvez volte o toque rouco do pesado telefone preto que parecia esperar tranquilamente ao cimo das escadas tantas vezes pouco iluminadas, se enchessem de luz e de vida quando, alguém ligada a luz ténue instável para se acomodar e ouvir do outro lado uns amistosos votos de “Boas Festas.”

Neste ano em que as “festas” serão em número mais reduzido, lembremo-nos que presença é muito mais do que estar ao lado e partilhar espaço. É partilhar vida. E partilhar vida muitas vezes pode significar resgatar memórias, emoções e sensações.

E que “dar ou fazer uma festa” pode ser também o acto de demonstração de um sentimento de ternura ou afecto. E esse pode ser feito das mais variadas formas. Desde que seja sempre feito com muito carinho e parta do coração. Não será essa afinal a magia do Natal: abrirmos o coração e permitirmo-nos recordar, viver e sentir?

Não quero que o meu Natal chegue e eu fique com uma sensação de porta arrombada. Ao escrever este texto, percebi que afinal posso permitir-me abri-la devagarinho, pouco a pouco todos os dias, e ir sentindo Natal dentro de mim.

E tu, como te sentes? Já é Natal dentro de ti?

Iron-Bridge of Coalbrookdale: A primeira Ponte de Ferro a marcar a Revolução Industrial na Inglaterra

Rui Manuel Marinho Rodrigues Maia

Licenciado em História, Mestre em Património e Turismo Cultural, pela Universidade do Minho – Investigador em Património Industrial

  • Subsídios para a memória do património industrial •

A primeira ponte de ferro construída no mundo, denominada em inglês “The Iron-Bridge” foi erguida num desfiladeiro, para travessia do rio Svern, próximo de Coalbrookdale, em Shropshire na Inglaterra. A ponte é um Monumento inglês, classificada em 1986 como Património Mundial pela UNESCO. A ponte de ferro é de facto uma Obra de Arte, que marca a ignição de uma Nova Era: A Revolução Industrial.

A imagem, adaptada, publicada no “The Telegraph”, ilustra a beleza ímpar da Iron-Bridge, que se constitui por um arco belíssimo que se conjuga brilhantemente com os suportes. A infraestrutura tem cerca de trinta metros de comprimento, cinquenta e dois metros de altura, e dezoito de largura. Na sua construção foram empregues várias centenas de toneladas de ferro fundido (cerca de quatrocentas). O que faz deste Monumento Mundial um ícone é precisamente o seu pioneirismo, remetendo-nos para 1709, quando Abraham Darby se apercebeu que o carvão de Coalbrookdale poderia ser utilizado para fundir ferro. A sua viabilidade económica permitiu avançar para a produção em massa de ferro-fundido, o que acabaria por despoletar a ignição daquela que ficou conhecida como “Revolução Industrial” inglesa. Em 1773, o arquiteto de Shrewsbury, Thomas Pritchard, teve uma ideia atrevida: Capitalizando os conhecimentos de engenharia com as novas técnicas de fundição de ferro, propôs aquela que seria a primeira ponte de ferro do mundo. A mesma haveria de ser fundida e construída pelo neto de Abraham Darby: Abraham Darby III. Tratando-se de uma ponte forte e durável, cuja missão seria apoiar o transporte de mercadorias através do rio Svern, reduzindo o trânsito de barcaças. Em 1777, os projetos de Pritchard para uma ponte de vão único de trinta metros (cem pés) foram aprovados pelo Parlamento inglês. A edificação da ponte começou nesse mesmo ano, mas, por infortúnio, o génio que a desenhou finou-se passado um mês do arranque dos trabalhos. Porém, entre 1777 e 1779, as obras continuaram, após Abraham Darby III aceitar dar bom porto ao projeto, e todo o ferro ser fundido na fornalha de Coalbrookdale. Em 1781, a um de janeiro, a ponte foi aberta ao tráfego, tornando-se de imediato num local procurado pelos turistas ingleses e estrangeiros. A sua escala e engenhosidade atraiu escritores, poetas, pintores e outros artistas que nela encontraram o expoente máximo da arquitetura – inserida num local predestinado ao deleite e à imaginação. O peso colossal da ponte permitiu aguentar grandes cheias no rio, mantendo a passagem. Contudo, em 1795, os pilares causaram danos na estrutura de ferro, abrindo fissuras, motivadas pela inconstância das margens, que os fizeram mover. Entre 1795 e 1821, houve a necessidade de reforçar os pilares da ponte. O pilar do lado sul foi modificado várias vezes e, porventura, substituído – inicialmente por dois arcos de madeira, e depois por arcos de ferro-fundido. Em 1934, após cento e cinquenta anos ao serviço, a ponte foi definitivamente encerrada ao tráfego rodoviário e designada como “Monumento Antigo”. Em 1973, uma haste de betão armado foi inserida na margem do rio para apoiar os dois encontros, neutralizando desse modo a tendência dos lados da garganta de empurrar para dentro. Em 1997, um pequeno esboço em aguarela realizado por um artista, de seu nome “Elias Martin”, deu à tona em Estocolmo, lançando por fim luz sobre um velho mistério: A forma como a ponte havia sido construída. Na viragem do século XX para o século XXI – 1999-2000 – a ponte foi alvo de um grande programa de conservação e pesquisa. As entidades “English Heritage” e o “Ironbridge Gorge Museums Trust”, realizaram um levantamento arqueológico exaustivo, o que permitiu obter informação detalhada acerca da natureza da ponte e seu desempenho. Entretanto, em 2017, o de “English Heritage” deu corpo ao maior trabalho de reparação, conservação e repintura da ponte, restituindo-lhe a sua cor primitiva. Os trabalhos foram dados por concluídos em 2018. Atualmente, a ponte é utilizada para passagem de peões, apesar de o seu arco ter sofrido um ligeiro abatimento. A Obra de Arte, marco indissociável da Revolução Industrial, é um dos mais icónicos monumentos construídos em ferro. É, portanto, a marca indelével da génese do Património Industrial, que encontra em muitas infraestruturas em ferro como pontes, fábricas, gares, e outros, dos mais belos Monumentos em simbiose com a natureza que os sustem. No distrito de Viana do Castelo a Ponte Eiffel sobre o Lima é talvez o Monumento mais expressivo do património industrial da região. Há outras infraestruturas também elas valiosíssimas, como a Ponte Ferroviária sobre o Coura, em Caminha, da empresa Fives-Lille, ou a extinta Ponte Ferroviária sobre o Âncora, também ela da prestigiada Casa Eiffel e, para terminar, não poderíamos deixar de lembrar a majestosa Obra de Arte do engenheiro espanhol, Pelayo Mancebo y Ágreda – a Ponte Internacional Valença – Tui – essa que nos liga à Europa!

Festa de São Frutuoso, fundador do Mosteiro de S. João de Arga

5 de dezembro
Paróquia de S. João de Arga
Diocese de Viana do Castelo

S. Frutuoso

Frutuoso nasceu na região de Bierzo, província de León, de família real visigoda, nos primeiros anos do século VII (600-610). Após o falecimento dos pais, dirigiu-se a Palência para se formar na escola do bispo Conâncio. Regressou depois ao Bierzo, onde se dedicou ao ascetismo anacorético.

Pressionado por muitos dos seus seguidores, fundou entre 639 e 642, o seu primeiro mosteiro, o de Compludo. A este seguir-se-ão muitos outros na Galécia. Uma tradição coloca o nosso Mosteiro de S. João d’ Arga entre os vários fundados pelo autor da “Regula Monachorum”.

 Festa do Fundador da “casa”

No dia litúrgico de S. Frutuoso, 5 de dezembro, a Paróquia de S. João de Arga, no arciprestado de Caminha, celebra festivamente o “dia do Fundador”, tendo como o ponto alto a celebração da Eucaristia.

Neste dia é construído o presépio, representando a casa onde Jesus Cristo nascerá no Natal. É também um compromisso das gentes de hoje de reservarem espaço para Deus, já que em Belém de há 2000 anos “não havia lugar para eles”. É um dos actos da festa do fundador desta “casa de Deus” na Serra de Arga: edificar uma casa para Jesus nascer.

Cruz da Evangelização

Em ano pastoral diocesano dedicado aos jovens, o presépio terá uma referência à Cruz da Evangelização entregue pelo Papa João Paulo II ao continente europeu na Jornada Mundial da Juventude (JMJ) de 1987, em Buenos Aires (Argentina), que esteve neste Mosteiro no ano 2016, aquando da sua passagem pelas dioceses de Portugal.

Em ano de pandemia não será possível organizar a frutuosa merenda” que habitualmente é servida no final da missa e que promove o encontro e partilha entre todos. Haverá um dia em que nos reuniremos junto do cesto da merenda: mas não será neste ano de peste!

Veículos autónomos vão trazer melhorias para o ambiente urbano

Se o advento dos veículos autónomos promete melhorar a segurança rodoviária, que consequências terá para a qualidade do ar nas cidades? A alteração do comportamento dos veículos vai trazer uma redução da poluição? Pela primeira vez, um estudo da Universidade de Aveiro dá resposta às questões: sim, os veículos autónomos vão trazer para as cidades um ar menos poluído e, por isso, mais saudável.

No geral, as investigações apontam o aumento da segurança rodoviária como a grande vantagem da tecnologia autónoma nos meios de transporte urbanos. No entanto, há um conjunto de benefícios de âmbito ambiental que têm sido pouco explorados e que se relacionam com a forma como o comportamento do condutor, através do processo de aceleração/desaceleração e travagem, influência o consumo de combustível, as emissões atmosféricas e, em última instância, a qualidade do ar.

E o CESAM, umas das unidades de investigação da UA, já tem respostas. O trabalho coordenado pela investigadora Sandra Rafael, que utilizou modelos de computação em dinâmica de fluidos para prever e conjugar vários cenários (número de veículos elétricos e não elétricos autónomos em circulação, morfologias urbanas, etc.) avança com respostas muito promissoras para a qualidade do ar nas cidades percorridas pelos veículos do futuro.

Considerando uma taxa de integração de veículos autónomos de 30 por cento, os resultados do estudo publicado na revista Science of The Total Environment revelaram uma redução total de 4 por cento das emissões de óxidos de nitrogênio, os gases nocivos à saúde produzidos por veículos com motor de combustão. Destes gases, só em dióxido de azoto, um dos mais perigosos para o ambiente, o estudo revela uma redução de 2 por cento. O mesmo estudo demonstrou que estas reduções serão tanto maiores quanto maior for a taxa de integração dos veículos autónomos das estradas das cidades, chegando a reduções máximas de 7,6 por cento.

Análise semelhante foi realizada considerando que a percentagem de veículos autónomos eram ao mesmo tempo veículos elétricos. Os resultados revelaram uma capacidade significativa de melhoria da qualidade do ar com uma redução média das concentrações de dióxido de azoto em 4 por cento.

Resultados muito promissores

Estes dados, aponta a investigadora Sandra Rafael, “ainda que modestos, são relevantes no contexto de poluição atmosférica em que vivemos”. Apesar da estratégia europeia para a redução das emissões ter conduzido a uma melhoria generalizada da qualidade do ar em toda a Europa, aponta a cientista do Centro de Estudos do Ambiente e do Mara (CESAM) da UA, “a concentração de alguns poluentes atmosféricos, como é o caso do material particulado e do dióxido de azoto, permanecem demasiado elevados em grande parte das cidades europeias”.

O tráfego rodoviário, pedra basilar do atual sistema de mobilidade urbana, é o principal responsável pelas emissões (cerca de 35 por cento) de óxidos de azoto. “Torna-se por isso essencial desenvolver tecnologias que permitam de forma eficiente e sistemática reduzir as emissões associadas a este sector”, aponta Sandra Rafael, cujo estudo aponta os veículos autónomos como um caminho mais verde.

Assinado pelos investigadores do CESAM Sandra Rafael, Luís Correia, Diogo Lopes, Carlos Borrego e Ana Isabel Miranda e pelos investigadores do Centro de Tecnologia Mecânica e Automação, também da UA, Jorge Bandeira, Margarida Coelho e Mário Andrade, o estudo foi desenvolvido no âmbito de um projeto mais abrangente, o InFLOWence.

Coordenado pelo Departamento de Engenharia Mecânica e com participação de investigadores do Departamento de Ambiente e Ordenamento, ambos da UA, o InFLOWence tem como objetivo perceber e otimizar a influência de veículos conectados e autónomos na eficiência ambiental de fluxos de tráfego rodoviário.

Relembrando o Presidente-Rei

No terrível ano de 1917, o que aparentava ser um vulgar golpe de Estado com o objetivo de afastar do poder Afonso Costa depressa se transformou numa experiência política tão insólita como inovadora em Portugal e na Europa.

A chegada de Sidónio Pais ao poder foi fruto das circunstâncias ditadas por um dos períodos mais dramáticos da nossa história do século XX, foi em grande parte uma resposta aos problemas criados pela Grande Guerra. A falta de matérias-primas e géneros de primeira necessidade e o consequente agravamento da inflação provocaram o caos tanto nos países europeus beligerantes como nos neutrais. Sucederam-se quedas de governos. Portugal não foi exceção. Essa pressão das condições provocadas pela guerra e a determinação inabalável da ditadura militar em manter o poder, a qualquer custo, vai adiando o inevitável. Mas será impotente para contrariar a crescente onda de contestação.

Nascido em 1872 em Caminha, Alto-Minho, Sidónio Pais entra com 16 anos para a Escola do Exército onde tirou o curso de Artilharia. Em 1895 já tenente frequenta a Faculdade de Matemática em Coimbra onde será mais tarde catedrático da cadeira de Cálculo Diferencial.

Logo após o 5 de Outubro é senador e faz parte do ministério de Manuel de Arriaga como ministro do Fomento e depois como Ministro das Finanças. Em 1912 é nomeado ministro plenipotenciário em Berlin e assim enquanto representante de Portugal consegue credibilizar o novo regime junto do Governo Alemão.

Ao mesmo tempo vai salvaguardando os interesses de Portugal em Africa, numa altura em que é conhecido o intenso interesse germânico por Angola. Confirmado o sucesso do golpe militar a 8 de Dezembro Sidónio foi surpreendido com banhos de multidão e aclamado como um salvador, numa conjuntura dantesca de fome e epidemia.

As manifestações populares de apoio, numa dimensão sem paralelismo na República, que testemunha de Norte a Sul do país convencem-no da disponibilidade nacional para uma ampla reforma do sistema político. Na mente do novo líder e dos seus colaboradores mais próximos surge o esboço de um novo regime. Uma “Ideia Nova” que ultrapassasse os obstáculos dos partidos republicanos tradicionais e do sistema parlamentar. Sidónio declarou-se ‘chefe de todos os portugueses’, ‘mandatário da nação’ legitimado pela eleição por sufrágio universal, o que acontecia pela primeira vez.

O sistema político, até aí “parlamentarista”, passou a “presidencialista”, à americana, com um Presidente da República que era também chefe do governo. Em Fevereiro de 1918, acumula a chefia do governo, com as pastas dos Negócios Estrangeiros e da Guerra e a presidência da República Nova que se destacou por uma intensa atividade legislativa e administrativa.

Através de um senado profissional em vários domínios da governação em apenas alguns meses implementa de imediato as seguintes medidas. No campo social, um consiste plano para estimular a criação de residências sociais em Lisboa e Porto de forma a institucionalizar as reformas necessárias para melhorar as precárias condições de vida. A faceta mais visível desta política de ajuda aos mais carenciados é a distribuição de alimentos, a conhecida ‘Sopa de Sidónio’.

Com a sua presença nas diversas cozinhas cultiva a imagem de presidente generoso e amigo dos mais desfavorecidos. O seu governo dedica grandes verbas no combate às duas epidemias que atingiam o país – a febre tifoide e a gripe pneumónica. No âmbito do modelo económico sidonista a agricultura passa a ser encarada com sector fundamental traduzindo-se no aumento dos preços agrícolas ate aí mantidos artificialmente baixos, na proibição de exportação de adubos e mais facilidade de acesso ao crédito agrícola. São também desenvolvidas medidas orientadas para elevar a capacidade de produção nacional e travar a especulação sobre produtos de primeira necessidade.

Outras linhas de força da política sidonista é a restituição das relações diplomáticas entre estado e a Igreja Católica. Este regime, assente na figura carismática do presidente, é uma experiência inovadora e que antecipa em diversos aspetos – populismo carismático – a tendência totalitária de vários governos desenvolvidos na Europa durante o período entre as guerras mundiais. Por isso, Benito Mussolini chegou a considerá-lo um das figuras-chave na criação do fascismo.

Na noite de 14 de Dezembro de 1918, dirigia-se para a estação do Rossio a fim de apanhar um comboio para o Porto. Quando a multidão que sempre o esperava o vê surgir, ovaciona-o como sempre. Entretanto a banda da Guarda Nacional Republicana começara a tocar o hino nacional. Sidónio vaidoso, ao ver tamanha multidão terá dito: – “Que quantidade de gente! É então baleado à queima-roupa, por balas vindas de duas direções. Apercebendo-se do sucedido, terá dito: – “Mataram-me! Morro, mas morro bem! Salvem a Pátria…”.

Será mais tarde apelidado de “presidente-rei”, pelo poeta Fernando Pessoa, seu contemporâneo e confesso admirador, numa alusão ao líder carismático escolhido pelo povo para o seu governo.

Quem ele foi sabe-o a Sorte,

Sabe-o o Mistério e a sua lei.

A Vida fê-lo herói, e a Morte

O sagrou Rei! (…)

Flor alta do paul da grei,

Antemanhã da Redenção,

Nele uma hora encarnou el-rei

Dom Sebastião.”

Em apenas um ano de presidência, protagonizou o primeiro momento do republicanismo português e marcou de forma indelével o século XX. Muitas vezes esquecido foi, sem dúvida, um dos políticos mais importantes de Portugal.

 

Gonçalo Sampaio e Melo

Psicologo/gestor

Nova governação regional, precisa-se.

A Lei n.º 75/2013, de 12 de setembro, estabeleceu o estatuto das entidades intermunicipais. Assim, estas entidades correspondem a “associações livres de municípios”, e assumem duas designações: “Comunidade Intermunicipal” e “Área Metropolitana”.

Dez anos antes da promulgação desta Lei, portanto em 2003, eu tinha publicado um texto provocativo com o título “A via de garagem do poder regional?”, note-se o ponto de interrogação.

Assim, eu afirmava então que “a atual administração local é herdeira de um pesado tributo. “Não consegue ainda ultrapassar os atavismos da sua dimensão territorial, apegada às quatro paredes do Concelho”. Decalcada do sistema de administração estatal nacional, pauta-se por “métodos tradicionais, hierárquicos e legalistas”, sendo que esta descrição foi forjada durante o Estado Novo, 1933-1974. Aliás, em consonância com as características de um então “país em desenvolvimento”.

Portanto, não é de admirar o desalento de muitos cidadãos.
Se a organização do Estado compreende a existência de uma administração local (artigo 235º da Constituição) ocupando um lugar de destaque na arquitetura jurídica constitucional, o poder autárquico fixou-se apenas em duas instituições democráticas, entenda-se, as freguesias e os municípios. Nesta questão reside o embaraço do problema do poder local. Pois, falta cumprir a instalação das “Regiões Administrativas” que alguns defendem, nos quais me incluo, e que outros tantos teimam em expurgar da Constituição.

Ora, o que se está a desenhar com a eleição do órgão de direção máxima das Comissões de Coordenação Regional, no passado mês de Outubro, é o reforço do caótico estado da administração do território em lugar de o descomplexar, agilizando a sua gestão e aumentando a representatividade efetiva dos cidadãos-residentes destas “regiões-plano”, porque são apenas e tão só, regiões-plano, não são ainda “autarquias regionais ou regiões administrativas”. A instauração, em 2013, das Comunidades Intermunicipais, e das Áreas Metropolitanas, não veio responder aos problemas das populações e as terras mais afastadas dos centros urbanos mais densos, continuaram a depauperarem-se, a perder população e a deixar fugir as empresas ou a perder atratividade.

Neste ponto, insisto em recordar que em toda a União Europeia, os territórios nacionais decompõem-se em três ou quatro níveis de competências autónomas e não parece que os Estados tenham padecido. Para citar o caso francês, com três níveis de representação política, de baixo para cima, são as “Communes” (Concelhos), os “Départements” (Distritos) e as “Régions” (Regiões). Estas entidades receberam do Estado Central as competências que foram transferidas ao seu nível estatutário. O objetivo principal era a inversão da centralista exagerada do Estado, diminuindo o fardo do centro, em benefício de novas entidades sub-nacionais, democráticas, eleitas diretamente pelos seus habitantes-residentes. Numerosos países seguiram este modelo. Recentemente, a própria Comissão Europeia considerou que esta arquitetura territorial era muito benéfica para as populações, as empresas e os territórios, com contributos mais fortes e resultados mais satisfatórios. Aliás, há bem pouco tempo, esta instituição supranacional apelava aos Estados-membros ainda não regionalizados a seguirem o exemplo.

Volto a reforçar esta ideia. Em Portugal, está na altura do Governo dar início a uma política planeada de desconcentração e transferência de competências e correspondente orçamento em proveito das Regiões Administrativas Constitucionais, com um programa sério de concretização do enunciado constitucional.

Os Distritos foram extintos e as populações ficaram mais pobres. A Comunidade Intermunicipal, que integra os dez Municípios do anterior distrito, não supriu esta falta de integração e visibilidade territorial, pois é uma entidade que representa o somatório dos municípios fundadores, que a constituem, sem representação direta dos cidadãos.

Ora as Regiões Administrativas, legitimadas pela participação efetiva, de todos os residentes na sua área territorial, na eleição dos órgãos políticos, criariam as condições necessárias a um maior desenvolvimento e integração da cidadania regional.

A nova Região administrativa teria dimensão e estatuto político para acolher competências transferidas do Estado central, com resultados maiores em favor do desenvolvimento regional de nível superior, na senda do que estimula a Comissão Europeia.

Todos queremos entidades que promovam o desenvolvimento sustentado, geradoras de mais riqueza, mais bem-estar e fixação das populações e das empresas. Não será este afinal o propósito de qualquer organização territorial?

Arnaldo Ribeiro, mestre em administração pública.

(26.10.20)

Padrões alimentares dos portugueses são insustentáveis

 

A alimentação pesa 30 por cento na pegada ecológica dos portugueses, mais do que os transportes ou o consumo de energia. A percentagem faz de Portugal o país mediterrânico com a maior pegada alimentar per capita. A conclusão é de um estudo da Universidade de Aveiro (UA) que deixa o alerta para uma balança muito desequilibrada: “Portugal importa 73 por cento dos alimentos e só o peixe e a carne ocupam cerca de metade do peso da pegada alimentar nacional”.

A Pegada Ecológica nacional, por habitante, é superior à biocapacidade do país ou do próprio planeta, o que siginifica que se todas as pessoas no mundo consumissem como os Portugueses, precisaríamos de 2,3 planetas Terra. 29 por cento dessa pegada diz respeito à alimentação, 20 por cento aos transportes e 10 por cento à habitação.

“A pegada alimentar avalia em hectares globais (gha) a quantidade de recursos naturais que necessitamos para produzir o que comemos num ano. Sabendo que o país tem anualmente um ‘orçamento natural’ de 1,28 gha por habitante [valor de 2016], percebemos que só para nos alimentarmos ‘gastamos’ 1,08gha, ou seja, 84 por cento desse orçamento”, aponta Sara Moreno Pires, professora do Departamento de Ciências Sociais, Políticas e do Território da UA.

Se dependêssemos exclusivamente da biocapacidade de Portugal para nos alimentarmos, refere a coautora do estudo, “ficaríamos com um saldo de 0,20 gha para todas as restantes atividades de consumo [transporte, habitação, energia, vestuário, etc.], se não quiséssemos ter défice ecológico”.

Mas grande parte da biocapacidade necessária para a nossa alimentação provém de outros países, como Espanha, França, Ucrânia ou mesmo China Senegal, o que implica uma pressão e uma dependência desses ecossistemas.

“Portugal é, por esses motivos, o pior país de 15 países do Mediterrâneo no que diz respeito à Pegada Alimentar”, alerta Sara Moreno Pires.

Publicado recentemente na reconhecida revista científica internacional Science of the Total Environment, o estudo intitulado “Transição alimentar sustentável em Portugal: uma avaliação da pegada das escolhas alimentares e das lacunas nas políticas de alimentação nacionais e locais”, assinado por investigadores da UA e da Global Footprint Network, apresenta conclusões relevantes sobre a insustentabilidade dos padrões alimentares dos portugueses e a ainda frágil estrutura de políticas públicas para inverter esta tendência. Para além de Sara Moreno Pires, também pela UA Armando Alves e Filipe Teles assinam o trabalho. 

Peixe nosso de cada dia

Portugal é o terceiro maior consumidor de pescado do mundo, com cerca de 61,7 quilos consumidos por pessoa em 2017 e 60 por cento da biocapacidade para produzir esse pescado vem de outros países, sendo Espanha um dos parceiros comerciais mais evidente. A elevada intensidade da Pegada Ecológica de peixes como o atum, espadarte e bacalhau (não considerando a Pegada associada ao seu transporte) são outra evidência, que aliados à sua força cultural na alimentação portuguesa, salientam ainda mais o impacto elevado do consumo de peixe na Pegada Alimentar.

Além disso, o estudo identifica uma dependência da biocapacidade de países estrangeiros (como a Espanha, França, Brasil, ou mesmo a China) para produzir recursos alimentares, de modo a satisfazer a procura dos portugueses, sendo as categorias mais dependentes as de “pão e cereais” (em que se importa quase 90 por cento dos hectares globais necessários à sua produção), “açúcar, mel, doces, chocolate, etc.” (com um importação na ordem dos 80 por cento) ou “gorduras alimentares” (com cerca de 73 por cento).

Para além da esperada relação comercial com Países Europeus, o estudo aponta uma dependência de países como Uruguai (na carne), África Ocidental e Senegal (no peixe), EUA (no leite e produtos lácteos), Argentina, Canadá e Brasil (nas gorduras alimentares ou frutos), ou China (nos frutos e nos vegetais).

 Políticas locais imprescindíveis

“Urge mudar hábitos alimentares e ter tolerância zero quanto ao desperdício”, sublinha Sara Moreno Pires garantindo que “o papel das políticas públicas é igualmente crítico para promover sistemas alimentares mais sustentáveis, desde a produção agrícola, ao processamento, à distribuição, ao consumo ou ao reaproveitamento dos alimentos, e para envolver todos nesta mudança”.

Dada a relevância de se estruturar e apoiar a governação das cidades em torno de sistemas alimentares mais sustentáveis, por estas desempenharem um papel fundamental na promoção de padrões alimentares resilientes e economicamente prósperos, pela sua proximidade e interação com diversos atores, este estudo identifica um conjunto de pontos fortes e fracos nas políticas de alimentação em seis cidades portuguesas: Almada, Bragança, Castelo Branco, Guimarães, Lagoa e Vila Nova de Gaia.

Como importantes contributos dos municípios, o estudo destaca a sensibilização da população para a Pegada Ecológica da alimentação através de Calculadoras Municipais da Pegada Ecológica disponíveis nos websites destas Câmaras Municipais, a promoção de hortas urbanas, hortas sociais e hortas pedagógicas, ou iniciativas inovadoras como o Banco de Terra em Guimarães, através da sua Incubadora de Base Rural, ou a investigação agroalimentar, promovida pelo Município de Castelo Branco em parceria com o CATAA – Centro de Apoio Tecnológico Agroalimentar.

O Município de Vila Nova de Gaia destaca-se por inúmeras ações importantes, desde a divulgação de infografias de sustentabilidade alimentar na plataforma de educação a todos os encarregados de educação, a ações de avaliação do desperdício alimentar nas escolas ou cadernos de encargos para o fornecimento de refeições escolares promotoras da sustentabilidade alimentar. Este município é ainda signatário do Pacto de Milão sobre Política de Alimentação Urbana, um importante compromisso político assumido por muitos autarcas do mundo inteiro em 2015, para o desenvolvimento de sistemas alimentares baseados nos princípios da sustentabilidade e da justiça social.

Das principais fragilidades identificadas pelos investigadores, a falta de recursos humanos adequados e com conhecimento especializado para trabalharem estas temáticas (com grupos multidisciplinares de profissionais qualificados, de nutricionistas a engenheiros florestais e agrícolas) ou de estruturas municipais para a promoção integrada de uma política de alimentação, são alguns dos fatores mais críticos. Destacam-se ainda o frágil suporte a circuitos agroalimentares curtos, que aproximem os produtores dos consumidores e a produção alimentar periurbana às cidades; a falta de regulamentação que promova compras públicas sustentáveis e a redução do desperdício alimentar; a ainda frágil colaboração entre as autarquias e diferentes setores (produtores, escolas profissionais, terceiro setor, empresas), bem como a falta de um compromisso político forte orientado para políticas alimentares locais. A falta de estratégias alimentares municipais ou de políticas integradas dedicadas à alimentação saudável e sustentável é disso um exemplo.

O estudo mostra que é necessário e urgente investir em mais informação (que identifique e avalie os impactos das iniciativas locais), mais recursos humanos, bem como na capacidade dos governos locais para promoverem sistemas alimentares equitativos, resilientes e sustentáveis. A coordenação entre atores e políticas, sobretudo a nível intermunicipal, ou mesmo nacional (nomeadamente com o Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional) é um passo necessário, bem como a sensibilização de todos os intervenientes na cadeia alimentar (da produção, ao processamento, distribuição, consumo e resíduos) para a mudança de comportamentos, de forma permitir um olhar renovado sobre como os sistemas alimentares se podem tornar mais sustentáveis em Portugal.

Aves marinhas fortemente afetadas por lixo da pesca

Aves marinhas fortemente afetadas por lixo da pesca

O lixo marinho, principalmente o material descartado ou perdido com origem em atividades piscatórias, tem consequências severas para a conservação das aves marinhas. O alerta é de um grupo de biólogos da Universidade de Aveiro (UA) que, durante dez anos, estudou as causas que levaram milhares de aves feridas ou mortas até ao centro de reabilitação de animais marinhos que atua na costa centro de Portugal.

Durante o período de estudo (2008-2018) foram analisadas as 2918 aves marinhas de 32 espécies que deram entrada no Centro de Reabilitação de Animais Marinhos do ECOMARE. Entre as causas de admissão das aves – entre elas, captura acidental, trauma, emaciação, doença ou intoxicação – quase 6,9 por cento (201 aves) traziam sinais de emaranhamento. Destas, 82 por cento dos casos referem-se a materiais relacionados com a pesca como anzóis, linhas e redes.

Mas os números estão muito aquém da realidade. “Como só conseguimos contabilizar os animais emaranhados que conseguiram dar à costa ou sobreviveram o tempo suficiente para chegar à costa, o problema está consideravelmente subestimado”, aponta Rute Costa, bióloga do Centro de Estudos do Ambiente e do Mar, uma das unidades de investigação da UA.

“Não nos é possível quantificar o número exato de aves enredadas na costa centro, muito menos no total da costa nacional, mas podemos dizer que será certamente muito superior aos 6.9 por cento (201 aves) apresentado no estudo”, garante a coordenadora da investigação.

O cenário, garantem os investigadores, é “preocupante”. Rute Costa aponta que “os valores apresentados neste estudo mostram claramente o impacto deste tipo de lixo nas aves marinhas e a importância para que o cenário encontrado seja modificado”.

Para diminuir o número de aves afetadas, nomeadamente pelos materiais usados pelos pescadores, aconselha, “é necessária mais fiscalização por parte das autoridades”. Além disso, acrescenta, “devem ser feitos mais esforços na consciencialização de pescadores principalmente para que os materiais particularmente perigosos, como resíduos de equipamentos de pesca, sejam eliminados de forma segura”.

O Dia Mundial do Tabaco celebra-se anualmente no dia 31 de maio

O Dia Mundial do Tabaco celebra-se anualmente no dia 31 de maio.

Desde da sua primeira descrição no século XVI, houve uma evolução muito grande na área do tabagismo e, hoje, representa um dos mais importantes problemas de saúde pública a nível mundial.

O tabaco é constituído por mais de quatro mil substâncias, sendo que algumas apresentam efeitos tóxicos, irritantes e também cancerígenos.

Existem diversas formas de fumar, desde dos cigarros convencionais, cigarrilhas e charutos, até ao cigarro eletrónico e o tabaco aquecido, que são as formas mais recentes de tabagismo e cada vez mais populares, nomeadamente nos mais jovens.

Segundo a Sociedade Portuguesa de Pneumologia, o tabagismo é responsável por um grande número de doenças, com particular destaque para o cancro em diferentes localizações, para as doenças crónicas do aparelho respiratório, cardiovascular e do sistema reprodutor.

A iniciação do consumo de tabaco é um grave problema de saúde infantil e juvenil. Estima-se que 10 % dos adolescentes entre os 11 e 18 anos experimentaram o cigarro eletrónico, pelo menos uma vez. Dos jovens que iniciam o consumo, considera-se que mais de um terço irá continuar a fumar ao longo da vida adulta, comprometendo assim a sua saúde.

No que concerne a mortalidade atribuível ao tabaco, estima-se que 13000 pessoas morreram do tabaco em 2017 (seja qual for a forma de fumar!).

Assim, torna-se fundamental impedir que as gerações mais jovens iniciem o consumo de tabaco para prevenir o aumento da carga atribuível ao tabagismo, nomeadamente, em termos de doença, incapacidade, mortalidade prematura, mas também em gastos em tratamentos e serviços de saúde e suas consequências a nível da sociedade.

O cigarro eletrónico e o tabaco aquecido têm sido usados de forma errada e sem evidência científica, como métodos alternativos para deixar de fumar. Pelo contrário, estima-se a que os adolescentes que iniciam este tipo de consumo, têm uma probabilidade SETE vezes maior de fumar cigarros convencionais, ao longo da vida.

Em maio de 2019, a SPP, em conjunto com outras 10 sociedades científicas internacionais, publicou uma declaração sobre a não recomendação do consumo de tabaco através de dispositivos eletrónicos libertadores de nicotina, para a cessação tabágica.

Para os fumadores que apresentam maior dificuldade em deixar de fumar, a cessação tabágica pode ser auxiliada através de aconselhamento psicológico, tratamento farmacológico e deve ser baseada em ar limpo de forma a promover uma saúde respiratória!

Realça-se que o abandono definitivo do tabaco antes dos 40 anos reduz em mais de 90% os riscos para a saúde que lhe estão associados.

Um comentário final é necessário perante as notícias recentes e a fase de desconfinamento em que a população portuguesa se encontra, sendo que o mesmo pretende reforçar a recente mensagem divulgada pela Sociedade Portuguesa de Pneumologia.

Apesar do impacto do tabagismo e a sua “relação” na transmissão e na morbimortalidade da doença causada pelo novo coronavírus SARS-CoV-2 ainda não se encontrar bem esclarecidos; sabe-se que o contacto mão-boca e mão-face realizado pelos fumadores constitui uma fonte de infeção reconhecida. Neste mesmo sentido, o uso de cigarros eletrónicos representa um risco para transmissão do SARS-CoV-2 (COVID-19), pois ao vapear o fumador exala gotículas de vapor, que podem transportar o vírus.

Assim, se estiver a fumar em locais públicos, respeite sempre as distanciais de segurança e não fume quando estiver na presença de não fumadores. É fundamental seguir as recomendações disponibilizadas pela Direção-Geral de Saúde.

Por fim, lembre-se que o facto de deixar de fumar tem benefícios em qualquer idade e em qualquer altura para Si e para os Seus!

Portanto, se quiser deixar de fumar, fale com os seus amigos e a sua família e procure ajuda de um Profissional de Saúde.

A procura do elixir da longa vida embrenhou povos, civilizações e culturas...

A procura do elixir da longa vida embrenhou povos, civilizações e culturas na densa floresta da alquimia que, na ávida procura da eterna juventude, buscaram a árvore da verdade que encontraram na raiz da morte combinando elementos que, por mero acaso, trouxeram um porvir que, a partir dos século X, vem confirmando a omnipresença da sua sombra, não deixando qualquer réstia de Humanidade. Foi assim que, desde o início da era Cristã, a sorte ou o azar colocaram nas mãos dos chineses uma invenção que usaram, primeiro, para fins pirotécnicos e, nove séculos depois, para finalidades bélicas sob a forma de foguetes e bombas explosivas, lançadas com recurso a catapultas. Do oriente, os seus efeitos atingiram o ocidente!

Os trons, a que se refere Fernão Lopes na sua crónica de D. João I, correspondem ao troar de canhões que, no campo da batalha decisiva, ajudaram a escrever a vitória que assegurou a consolidação da independência de Portugal, que mais uma vez teve de se erguer em armas contra Castela porque o clero e a nobreza não queriam perder os seus privilégios! Os anos foram passando, os séculos foram dobrando e a arte da guerra arrefeceu alfagemes para industriar armeiros que usaram o seu engenho para aprimorar pistolas e espingardas, fuzis e pederneiras que cuspiam fogo graças à ignição da pólvora que, após se armar o cão, percutia invólucro que fazia expelir pelo cano projéctil a que também se chama bala.

Barata a bala, fácil a arma. O dispositivo só funciona quando todos os elementos, concebidos para matar, se encontram presentes, incluindo a peça final para premir o gatilho e acionar o percutor: o bicho homem, único animal que não mata para se alimentar, mas apenas para derrubar o seu semelhante!

Desde o século X, do oriente ao ocidente, os campos de batalha ficaram ainda mais vermelhos com o sangue dos inocentes, derramado em palcos de guerra mais ou menos convencionais, nos conflitos regionais, nas guerras de dimensão mundial, em massacres de etnias, em genocídio de povos, nas limpezas étnicas, nas atrocidades rácicas, em barbáries gratuitas. Mais recentemente, em execuções sumárias testemunhadas pela frieza das televisões, pela inércia de presentes que foram os mais ausentes, pelo que em vez de agirem demoraram bastante a reagir. Assim se apunhalam as costas da Humanidade!

O desígnio da paz encontra-se, há muito tempo, capturado pela demagogia política e pela retórica ideológica que encobriu ações que purgaram sombras, que nunca encontraram o sol dos exílios dourados, apenas porque os ditames do medo as viam como ameaças ao poder ditatorial que, sob a aparência de democracia popular e a ilusão da bandeira da paz, se transformaram nos maiores carniceiros da Humanidade. Uma espiral de violência, que nasce de sementes de ódio, gera ainda mais violência!

Barata a bala, o elemento mais pequeno de uma engrenagem que, sendo globalmente mais dispendiosa, para pouco ou nada serve sem o projétil projectado por cano espiralado para atingir velocidade e alcance verdadeiramente surpreendentes, tornando ainda mais letais armas de guerra sofisticadas que, nalguns países, se podem adquirir ao virar da esquina, ao alcance de qualquer bolsa. Filhos e filhas perdidos nos jogos de guerra que alimentam a propaganda que os faz acreditar que quando tiram a vida a crianças inocentes, ou ceifam populações indefesas, estão a lutar pela Pátria, que também poderia ser Mátria, mesmo que por preguiça, ou cómoda ignorância, desconheçam os significados de ambas. Sem conversa, sem pensamento, apenas dispara e corre!…

Derrubam-se estátuas de mercadores de escravos que, mesmo naufragando, não apagarão as marcas da discriminação que os estatuados deixaram naqueles que foram escravizados pelo seu semelhante, independentemente da cor da pele, crenças ou etnia. A sociedade esclavagista não deixará de existir apenas porque ódios antigos se encontravam adormecidos, e tiveram um despertar violento, pois a onda de racismo continua a encapelar a maré que não será fácil de virar. Violência gera mais violência! Intolerância cria ainda mais intolerância! Pode-se derrubar uma estátua, mas não se conseguirá colocar borrão sobre as páginas da História que anunciaram um novo tempo para a globalização se revelar, através das trocas comerciais e das permutas intercontinentais. Mesmo que o acaso tenha levado o navegador para o novo mundo e a sua teimosia o situasse nas Índias orientais!…

Muita gente tem sido, entretanto, baptizada no preconceito, que é confirmado no ódio e ordenado na violência! Somos quase todos filhos do mundo moderno, gerados pelos meios de comunicação de massas, dados à luz pela TV… Enchem os nossos ouvidos com os disparos e os gritos da guerra. Sobrecarregam os nossos olhos com imagens de violência. Sejam balas reais, ou balas de borracha, sente-se o ar impregnado de cheiros a pólvoras e a gases, em ecos de manifestações aparentes, que transformam ruas, praças e avenidas em campos de batalha, onde todos os excessos acontecem de ambos os lados da barricada. As mentalidades não mudam enquanto a cultura da violência gratuita não evoluir e os barcos negreiros continuarem a sulcar memórias, que não zarparam de instalações litorais, onde se encurralavam seres humanos em jaulas como se fossem animais, para os amontoarem em porões imundos a caminho do novo mundo…mas não se pode passar para o outro extremo, ao considerar que os descendentes dos mercadores de escravos negros devam ser responsabilizados por atos alheios, o mesmo se diga dos colonizadores, dos colonialistas, dos governos que prosperaram com o tráfico negreiro.

Provavelmente, cada estátua que existe desperta sentimentos e reacções que levantam diferenças de pessoa para pessoa. Talvez nenhuma possa resistir à diferença de opinião, pois cada estatuado terá o seu lado lunar e a sua feição solar. Haverá sempre um pretexto para derrubar, pois o que para uns é um herói para outros não passa de facínora, aquele que para muitos realizou óptimas coisas, para alguns só fez coisas péssimas…e vice-versa!

Vulto proeminente da cultura portuguesa, António Vieira, frade jesuíta ao serviço da missão de evangelizar os gentios, ergueu-se contra os colonizadores que não respeitavam os direitos dos indígenas das terras de Vera Cruz, os únicos que se podem dizer de raiz brasileira, pois os outros resultam de um cadinho que fundiu etnias numa miscigenação que marca o Brasil de hoje. Considerou ainda absurda a distinção de judeus convertidos forçadamente ao cristianismo, enfrentando os agentes do santo ofício, o que lhe valeu perseguição que justificou refúgio na cidade eterna e proteção papal. Faltou-lhe uma atitude mais ousada para condenar abertamente o tráfico negreiro, o que por si só parece justificar a profanação de uma das estátuas que lhe ergueram em Lisboa. Derruba-se, até por uma pequena diferença de opinião!

Barata a bala que larga tinta, fácil a arma do populismo que profana a História, alimentando-se de ignorância e dessedentando-se no obscurantismo e na intolerância. O ódio encerrou-se num círculo difícil de quebrar. A Humanidade perdeu o ponto de equilíbrio que mitiga extremos!