Castro de Sabroso: proteger a ruína, recuperar a memória

O Castro de Sabroso, em São Lourenço de Sande, será alvo de uma ampla intervenção de reabilitação, a ser executada pelo Município de Guimarães, no decurso da votação favorável do projeto no âmbito do Orçamento Participativo. Previamente aos trabalhos de vedação, consolidação e sinalética, a área do monumento entregue ao cuidado da Sociedade Martins Sarmento (SMS), foi, nos últimos meses, integralmente limpa da vegetação infestante.

Esta campanha de limpeza, de considerável dimensão, foi executada pela Vitrus Ambiente EM SA, com o acompanhamento da SMS e do Laboratório da Paisagem, tendo sido abordadas hipóteses de trabalho para garantir o necessário controlo do crescimento da vegetação, particularmente de mimosa. Já anteriormente tinha sido limpa grande parte da área do monumento, nomeadamente entre 2015 e 2017, pela Junta de Freguesia de Sande São Lourenço e Balazar, tendo-se verificado, porém, a regeneração do coberto vegetal infestante.

Enquanto não se iniciam os trabalhos de valorização do castro, que virão possibilitar a visitação do monumento, é interdita a circulação de visitantes sem acompanhamento, não apenas para evitar o impacto sobre as estruturas arqueológicas, mas também para segurança dos próprios visitantes.

Assinalando-se o Dia Internacional dos Monumentos e Sítios, foi publicada a informação sobre um episódio ocorrido recentemente, que mostra como é complexa a proteção do património cultural e como os atos de vandalismo e destruição incluem práticas diversas.

Ainda antes de ter início esta campanha de limpeza, os técnicos da SMS verificaram a presença, no Castro de Sabroso, de valas de saque resultantes de práticas ilegais de detetorismo. Um destes saques, ocorrido em setembro de 2020, foi aberto no interior de uma estrutura circular, no terreno mais elevado do castro, onde o ato de vandalismo foi cometido num ponto em que o aparelho deve ter detetado uma lata, que ainda se encontrava no local. A vala foi aberta no que será uma camada de revolvimento, tendo sidos deixados à vista, além da referida lata, vários materiais arqueológicos que saíram da vala. Notamos que esta casa já tinha sido escavada, no século XIX, no decurso das primeiras campanhas de Martins Sarmento.

Os materiais desenterrados, e parcialmente partidos, no decurso do saque, foram recolhidos pelos técnicos da SMS, para lavagem e identificação. São vários fragmentos de cerâmica e um fragmento talhado de quartzito. A maior parte dos fragmentos de cerâmica pertenciam a uma mesma peça. Seria um púcaro modelado a torno e fabricado através de cozedura redutora, com pasta fina, onde se identificam pequenos grãos de quartzo, e com a superfície previamente afagada. Trata-se, portanto, de uma peça de louça de mesa, que corresponde à especialização funcional das cerâmicas da última fase da Idade do Ferro (séculos II e I a. C.).

Além da fragmentação e da recolha apenas parcial desta peça, porque apenas se guardou o que foi deixado à superfície, e não se conhece o que pode ter sido levado pelo autor do saque, o seu contexto de depósito não foi corretamente registado, perdendo-se, assim, informação cronológica e funcional sobre a casa circular em questão.

Estes materiais foram guardados, integrando assim o espólio do Castro de Sabroso, à semelhança das peças recolhidas em contexto de escavação.

A utilização de detetores de metais para pesquisa de objetos e artefactos históricos é proibida em Portugal, bem como a utilização e transporte destes aparelhos, não licenciados, para efeitos de pesquisa em monumentos, de acordo com a Lei 121/99 de 20 de agosto. Do mesmo modo, é proibida a recolha de materiais arqueológicos, mesmo estando à superfície. Todos os cidadãos devem denunciar estas situações junto das autoridades.

Proteger o património e salvaguardar a herança cultural é, antes de mais, respeitar a Lei. Qualquer intervenção num sítio arqueológico, inclusive no Castro de Sabroso, que é Monumento Nacional, deve ser responsabilidade das entidades competentes, devidamente autorizadas pelas autoridades que tutelam o Património Cultural.

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