O que é feito de nós

Poesia de David F. Rodrigues

Cláudio Lima # Opinião

 

A poesia de sempre atravessa os hojes que quisermos que por eles passe. Passa e não sofre mossa nem desgaste, antes se lhe aviva e remoça a perene atualidade. A todos responde num encadeamento de desafios e revelações quantos a nossa ousadia e a nossa insatisfação lhe solicitem. Não se esgota nem depaupera nas múltiplas e multiformes aproximações possíveis, num processo aberto de renovação e metalinguagem, com a letra em constante adaptação às interrogações e interpretações que cada leitor em cada contexto temporal lhe busca e postula. A poesia de sempre é a que responde ao agora e logo embarca para futuras navegações.

DAVID RODRIGUES publicou em 1988 uma série de 30 poemas a que deu o título de O QUE É FEITO DE NÓS; david f. rodrigues acaba de publicar neste verão de 2022 uma 2.ª edição grafada o que é feito de nós. Repare-se nas alterações introduzidas no título e na nomeação de autor. E anote-se que também no miolo outras se verificam e refletem a sua evolutiva conceptualização do impacto gráfico e gramatical, ao longo de uma trintena de anos: abolição das maiúsculas e das vírgulas, além de outras alterações em menor número e mais reduzido efeito. De resto, os poemas mantêm-se intocados no teor do texto e na distribuição dos versos. Acrescente-se que a presente edição, da responsabilidade da C. M. de Viana do Castelo (a anterior inaugurou a coleção “Pinus Pinaster” das edições Limia – Cooperativa Cultural Vianense), prima no design, apurada impressão e excelência de papel. Transcreve o Prefácio da 1.ª edição, da autoria de Mário Cláudio e inclui 30 ilustrações de Francisco Trabulo, cada uma afeta a cada poema selecionado, inserção que constitui uma considerável mais-valia, fazendo desta edição, cumulativamente, um estimável objeto de arte gráfica.

Sobre a qualidade da poesia, revelada em 1988 e agora, várias têm sido e coincidentes as avaliações que mereceu a críticos credenciados e ilustres oficiais do mesmo ofício. À cabeça citemos o prefácio do consagrado Mário Cláudio que, na concisão de quatro parágrafos, revela a inteligência e a sensibilidade com que leu e assimilou esta proposta poética. Mas muitos outros, pelos diversificados ângulos de análise e impressões colhidas, avalizaram sem reserva ou dissonância, o teor, a consistência e a apurada técnica que o Autor imprimiu aos poemas. Da vasta lista de depoimentos – e para abreviar lembremos apenas os daqueles que já não se encontram fisicamente entre nós, – refiram-se os de Albano Martins, Fernanda Botelho, Francisco Martins, a galega María Díaz Vidal e Matilde Rosa Araújo.

Que podemos acrescentar de surpreendentemente novo ou encoberto, astuciosamente ludibriando a malha apertada e bem urdida de tantos e tão bem apetrechados críticos e poetas? Nada de relevante, definitivamente. Quem se der ao cuidado de ler ou reler a seleção crítica que DFR inseriu no final desta 2.ª edição, verificará que todas as linhas possíveis de abordagem e interpretação estão lá, com argúcia e medida exemplares; evidenciando que esta obra do vate limiano, emergindo de um substrato rural e arcaico, se sublima e transfigura ao ascender a altos níveis de expressão lírica, graças ao labor oficinal e, sobretudo, às vivências indeléveis de quem a realizou.