A boa gente de Viana

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Defensor Moura # Opinão

Tendo sido alertado por um amigo mais atento, para o discurso proferido pelo cardeal José Tolentino de Mendonça no Dia de Portugal de 2020, acabei por adquirir o livro com o texto completo “O que é amar um país”, para melhor reflectir sobre o tema. A análise teórica e filosófica do autor, desper- tou em mim a necessidade de sustentar, em exemplos e manifestações concretas de bem querer, o meu amor à minha terra natal.

Como sempre considerei que quem ama cuida do ente amado, vi-me assim obrigado a elen- car os cuidados ou serviços que prestei à minha comunidade, para além da minha estrita obrigação profissional e logo constatei que nada tinha conseguido sozinho.

Tinha sido sempre a minha identificação com os meus conterrâneos, a partilha das minhas iniciativas e as parcerias na sua con- cretização que justificaram a continuada dedicação à terra natal, onde quero continuar a viver e morrer.

Não teria alento para continuar, se não tivesse essa retribuição dos meus concidadãos, especialmente quando os meus sonhos são maiores e os empreendimentos mais difíceis.

Aprofundei esta pragmática reflexão e reuni exemplos concretos no livro que publiquei em 2021 “Amar um país é cuidar e retribuir”, dando

corpo a um sentimento interiorizado desde a infância, fruto da minha vivência na família e nesta comunidade que amo.

Ainda recordo com um sorriso, como a boa gente de Viana aguardava pacientemente que o governo retomasse as obras de construção do novo Hospital, mas logo se mobilizou para me apoiar a criar a Liga dos Amigos do Hospital, com o objectivo de reivindicar a rápida conclu- são e abertura das tão desejadas instalações hospitalares.

O mesmo se passava com a boa gente vianense, conformada com a morte dos seus doentes a caminho dos Hospitais do Porto por não haver sangue no nosso hospital e logo respondeu ao apelo da Liga dos Amigos e correu a dar sangue que, desde há trinta anos, nunca mais faltou no nosso Hospital.

Também sorrio quando passo na marginal e a branca silhueta do Gil Eannes me recorda que o fomos resgatar ao estaleiro de sucata, onde seria desmantelado se os vianenses não acorressem ao meu apelo e não se mobilizassem para o adquirir e transformar em museu vivo da nossa construção naval e da nossa história nos mares do mundo.

E como respondeu a boa gente vianense, quando toquei a rebate para salvarmos as nos- sas praias do fuel derramada pelo Coral Bulker naufragado no molhe norte? Vestiu os imper- meáveis e pegou nas pás e as praias ficaram lim- pas para receber a bandeira azul logo no verão seguinte! E quando a Liga dos Amigos do Hospital teve de comprar um Mamógrafo Digital para diagnosticar melhor o Cancro da Mama nas Mulheres vianenses e depois precisou de insta- lar o Hospital de Rectaguarda durante a Pande- mia Covid 19, não soube a boa gente de Viana chegar-se à frente e contribuir sem hesitações?

E … E … E … Não me faltam exemplos para demonstrar que a boa gente de Viana existe, ama a sua terra e as suas gentes e sabe retribuir o que recebe de Viana do Castelo e dos bons vianenses!

Mas não é tudo boa gente em Viana do Castelo!

Nem todos os que cruzam connosco nas ruas são bons cidadãos.

Embora a maioria deles jure a pés juntos que ama Viana, se lhe perguntarmos o que fez por Viana, fora das suas obrigações profissionais, gagueja, força uma tossiqueira e, em última análise diz …. pago impostos.

Ou então diz que quando tem iniciativas, não o deixam fazer ou ninguém o apoia.

E já apoiou a iniciativa de alguém? E o mais certo é voltar a gaguez e a tossiqueira. Mas pior do que os que não ligam nem ajudam, são os que dizem sempre mal ou chegam mesmo a boicotar as iniciativas dos outros.

São quase sempre os mesmos e já são bem conhecidos, principalmente de quem anda nes- tas coisas do trabalho para os outros.

Tenho o velho hábito de guardar os registos de quem apoiou as minhas iniciativas e, por isso, não posso deixar de sorrir quando ouço

declarações de amor a Viana e aos vianenses, de quem nunca contribuiu para isso.

Para que saibam a Liga dos Amigos teve sempre fortes opositores na sua acção, dentro e fora do Hospital! A dádiva de sangue para os doentes do nosso hospital teve e tem concorrentes!

A compra do Gil Eannes teve quem se opusesse à compra, com o argumento de que era mais um elefante branco para a autarquia gas- tar dinheiro!

Ao apelo para limpar as praias não responderam, por exemplo, as associações ambientalis- tas que tanto falam a defender a preservação dos recursos naturais!

E na oferta dos equipamentos aos serviços hospital, não nos falta quem responda que é o Estado que os deve comprar!

E, afinal, todos esses bota abaixistas são, também, vianenses e, quando trabalhamos em prol da comunidade também trabalhamos para eles!

Mas é evidente que os vamos conhecendo cada vez melhor e, como tenho o grave defeito de não dar a outra face, tenho-me divertido um bom bocado a combatê-los quando se atrevem a virar as costas ou a atacar sem razão as inicia- tivas a favor da comunidade.

Nem todos somos perfeitos!

Mas vamos sempre avançando em frente, com a Boa Gente de Viana!

E, assim, a Radioterapia também há de vir para tratar os nossos doentes com Cancro.

Só perde quem desiste!