“Falta quebrar a cultura da normalização das pequenas corrupções e das cunhas” 

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Na comemoração dos 50 anos da Universidade do Minho, a presidente da Associação Académica protagonizou a intervenção mais política da sessão solene. Margarida Isaías Santos considerou que, ao contrário do que acontecia antes do 25 de Abril, “falta política na educação”, defendendo um “ensino superior completo”, a apontou o dedo à “cultura de normalização” das “cunhas”. 

“Filha de Abril”, a jovem aluna de 24 anos, finalista de Medicina, disse ter crescido “sem debate e sem discussão política na escola”, mas a ouvir falar do 25 de Abril. “Cresci entre crises financeiras e crises políticas. Cresci entre fraudes, interesses pessoais, corrupções e tráfico de influência. Cheguei aos 18 anos com uma grande e entusiasta vontade de exercer o meu direito de voto, não sabendo como o fazer, porque nunca me foi ensinado”, lamentou, alegando que, desde que começou a fazer parte de orgãos de decisão local, académico e nacional, tem “visto de perto, as fraudes, os interesses pessoais, as corrupções e os tráficos de influência”.

“Cheguei aos 24 anos com duas eleições antecipadas, videos de um minuto no Instagram, ataques “humorísticos” entre partidos no Tiktok e debates de 30 minutos sem manifestos políticos disponíveis, seguidos de horas e horas de comentários e de horas perdidas, mas talvez necessárias em plataformas como o Polígrafo. A minha geração cresceu na descrença e na desconfiança política e eu cheguei aos 24 anos a olhar para o lado e a ver muitos jovens da minha geração sem vontade de exercer o seu direito de voto. Outras gerações, mais novas, têm hoje os seus primeiros contactos políticos através de vídeos, tiktoks, reels ou tweets, com declarações curtas, populistas e promotoras de ódio”, alertou, considerando que “a democracia e a liberdade estão em risco, e, por isso, também estão a Educação e as universidades”. 

50 anos após a revolução, que aconteceu também na educação, Margarida Isaías Santos considera que agora “falta o debate, a discussão e a política na educação”. “Se há 50 anos não era preciso promover tudo isto no meio académico porque era proibido – e era tudo o que toda a gente queria poder fazer -, hoje há um afastamento, há uma desilusão e uma desconfiança. Temos de trazer tudo isto de volta à educação. Não podemos ter um ensino meramente baseado no currículo, temos de ter um ensino superior completo. Falta quebrar a cultura da normalização das pequenas corrupções, dos abusos de poder ou do tráfico de influências no dia-a-dia de cada um de nós, com as pequenas “cunhas” e os pequenos favores (…) o combate à corrupção nas esferas de liderança começa na sociedade, começa em cada um de vocês, de nós, e começa na educação pelos valores da honestidade, da transparência, da justiça e da democracia. Falta ouvir os estudantes e não apenas dar-lhes a palavra”, defendeu, reforçando que a educação é solução para a crise democrática, “numa universidade sem barreiras, numa cidade conhecida por deixar a porta aberta”.

“Se, na ditadura, a luta universitária era pela liberdade, hoje existem outras bandeiras, mantendo, contudo, a liberdade sempre como pano de fundo: as propinas, o alojamento, os transportes, a ação social, o combate ao assédio, a luta pela igualdade de género, a saúde mental, os empregos dignos e o nosso legítimo – e necessário – lugar na discussão e nas decisões”, enfatizou, perante a vasta plateia de académicos e decisores políticos.

Leia a reportagem na edição desta semana do Alto Minho.