Texto: José Rodrigues Lima

Atendendo aos condicionalismos e cancelamentos devido à  Covid-19, a comemoração do será simbólica e inserida no programa Melgaço em Festa.

O “DIA DO BRANDEIRO”comemorado na branda da Aveleira, freguesia da Gave,a 1.120 de altitude regista a transumância  da parte baixa da aldeia a partir do mês da Abril.

Seguiam os brandeiros com o gado, conduzindo-o para as boas pastagens e aí permaneciam até Setembro.

Os homens do cajado firme habitavam as cardenhas e experimentavam a dureza dos dias, onde o convívio testemunhava a a solidariedade ativa.

Os brandeiros realizavam os trabalhos da guarda do gado, da plantação das batatas e do corte do feno, entre outros.

São recordados “os labores feitos com lugões,consertar a o tarambelho ou a couçoeira”.bem como limpar a bezerreira.

Há uma sabedoria centenária :”Quem é do monte volta pró monte, como o melro puxa à silvareira”.

Como escreveu Miguel Torga : há sempre um reino maravilhoso” com os ribeiros do Aveleira, do Calcado e do Vidoeiro.

Por vezes ouve-se:”Temos que respeitar as nossas raízes…É por aqui, seguimos o legado dos os nossos antepassados “.

A comemoração do DIA DO BRANDEIRO surgiu do “PROJECTO CULTURAL MEMÓRIA E FRONTEIRA” realizado em 1996, aquando a jornada  das Brandas do Alto Minho a 7 de Setembro.

Foi proclamada  a DECLARAÇÂO PATRIMONIAL DA BRANDA DA AVELEIRA que sublinha:

No dia 6 de Agosto de 2016, em que celebramos festivamente o Dia do Brandeiro, renovamos a Declaração Patrimonial de 7 de Setembro, 1996.

Os brandeiros que comungaram com estes pedaços de terra, onde cada espaço está denso de permanência e universalismo, foram protagonistas e construtores de uma trama espessa e indissolúvel, em que os factores geográficos, ecológicos, económicos e de adaptação operaram uma constante simbiose que contribuíram para a coesão social, neste conjunto harmonioso de montanha.

Celebre no âmbito ecológico ficou a Carta do chefe Seattle, escrita em 1854 e endereçado ao então presidente americano Franklin Pierce como resposta à proposta de compra de uma grande extensão de terra índia, feita pelo grande Chefe branco de Washington

CUIDAR DA CASA COMUM

“… Por fim, talvez sejamos irmãos…

… Cada parcela desta terra é sagrada para o meu povo…

… Somos parte da terra e do mesmo modo ela é parte de nós próprios. As flores perfumadas são nossas irmãs, o veado, o cavalo, a grande águia são nossos irmãos; as rochas escarpadas, os húmidos prados, o calor do corpo do cavalo e do homem, todos pertencemos á mesma família…

… A água cristalina que corre nos nossos rios e ribeiros não é somente água; representa também o sangue dos nossos antepassados…

… Que seria dos homens sem os animais? Se todos fossem exterminados, o homem também morreria de uma grande solidão espiritual. Porque o que suceder aos animais, também sucederá ao homem. Tudo está ligado.

Devem ensinar aos vossos filhos que o solo que pisam são as cinzas dos nossos avós. Ensinem aos vossos filhos que a terra está enriquecida com as vidas dos nossos semelhantes, para que saibam respeita-la. Ensinem aos vossos filhos aquilo que nós temos ensinado aos nossos, que a terra é nossa Mãe.

Tudo o que acontecer à terra acontecerá aos filhos da terra.”

Propomos para o espaço geo-cultural da Branda da Aveleira:

  1. 1- Que a mesma seja classificada como paisagem protegida;
  2. 2- Que se proceda a uma florestação equilibrada com espécies autóctones e protegidas, como o carvalho, o vidoeiro, o castanheiro, o azevinho e outras;
  3. 3- A criação de um eco-museu em que as cardenhas ocupem um lugar de destaque;
  4. 4- Aproveitar a Branda para o turismo serrano e cultural, mas moderado;
  5. 5- Que se promova todos os anos o Dia do Brandeiro, aproveitando para o convívio e contributo valioso para a resolução dos problemas que os preocupam e para a preservação e promoção destes espaços;
  6. 6- Fomentar a educação patrimonial para “olhar o futuro do passado”.

Acrescentamos à Declaração de 1996:

  1. 7- De acordo com a Carta da Terra (2000) “transmitiremos às futuras gerações valores, tradições e instituições que apoiem, a longo prazo, a prosperidade das comunidades humanas e ecológica da Terra;
  2. 8- Perspectivamos “adoptar em todos os níveis, planos e regulamentações ao desenvolvimento sustentável que façam com que a conservação e a reabilitação ambiental sejam parte integral de todas as iniciativas do desenvolvimento;
  3. 9- Sugerimos o objectivo do Ano Internacional das Montanhas (2002) que preconiza “incrementar a consciência e o conhecimento dos ecossistemas de montanha, suas dinâmicas, seu funcionamento e sua importância decisiva em proporcionar alguns bens e serviços estratégicos para bem estar dos habitantes das terras altas e das terras baixas, tanto no contexto urbano como rural, particularmente o fornecimento de água e segurança alimentar”;
  4. 10- Conforme doutrina expressa na Encíclica “Laudato Si” (Sobre o cuidado da casa comum) (2015), do Papa Francisco: “integraremos a história, a cultura e a arquitectura de um lugar, salvaguardando a sua identidade original”.

BRANDEIROS: CAMINHEIROS DE OLHOS CHEIOS DE MEMÓRIA

É de registar que o Primeiro Ministro António Guterres enviou uma mensagem que foi proclamada perante uma assembleia de centenas de participantes .

Expressou António Guterres:: Brandeiros-Caminheiros com os olhos cheios de memórias e os pensamentos levados pela aragem”.

No próxino ano os 25 anos do Dia do Brandeiro serão assinalados com alta dignidade  e de modo expressivo, pois as cumunidades rurais possuem valores culturais que nos levam por sabedoria fruto de longa elaboração humana, com permanência e universalismo.

Recordamos os brandeiros José Maria Rodrigues.Justino Alves,José Alves,Justino da Teresa,Ernesto,`Néu,Américo,António do Justino, Justino da Gave e muitos outros…serão lembrados.

O brandeiro com mais memória continua a ser Manual Carvalho, com mais de noventa anos, e sempre com a paixão dos ares brandos e águas cristalinas.

Como sabe contar os tempos da branda  e falar do gado bovino, cavalar e caprino…

Também na montanha se escreve a história dos homens na variedade cultural e biodiversidade da casa comum.