Santo António no Alto Minho: O caso de Ponte de Lima

Rui Manuel Marinho Rodrigues Maia
Licenciado em História, Mestre em Património e Turismo Cultural pela Universidade do Minho – Investigador em Património Industrial.

Nesta breve crónica trazemos a lume Santo António, o Santo de Lisboa e de Pádua, evocando a sua presença no Alto Minho. Não cabendo em tão singelo trabalho a imensidão de templos dedicados a Santo António nesta região, atenhamo-nos à Igreja que se situa no lugar comumente conhecido como “além da Ponte”, de quem Santo António é orago.

Ao partirmos do Largo de Camões, em Ponte de Lima, temos logo pela frente a bela Ponte Romano-Medieval que, sendo atravessada, nos conduz à Igreja de Santo António, que pertence à freguesia de Arcozelo, na margem direita do rio Lima.

A Igreja localiza-se no percurso de um dos Caminhos de São Tiago e, logo a seguir, encontra-se o albergue de peregrinos, o que faz dessa Igreja um ponto obrigatório a visitar. A Igreja foi reconstruída na transição do século XVIII para o século XIX em estilo tardo-barroco. A sua planta é composta por nave, capela-mor, sacristia e torre sineira. A fachada principal termina em empena recortada, sendo rasgada por portal de verga reta com moldura, formando espaldar, com cornija e óculo recortado entre duas amplas janelas retangulares. As fachadas laterais possuem os espaços interiores definidos por pilastras, sendo rasgadas por vãos de perfil curvo, ao passo que, na posterior, sobressai a torre sineira bastante elevada, coberta por cúpula adelgaçada – muito típico desta região – com enormes gárgulas. No seu interior podemos vislumbrar os retábulos laterais, bem como o retábulo-mor em talha tardo-barroca. O estado de conservação da Igreja é exemplar, sendo um local de culto bastante acolhedor e que nos conduz a diversos estados de interpretação e meditação dada a sua enorme riqueza.

A Igreja de Santo António, localizada em local tão nobre, confere ao rio Lethes um papel especial, na medida em que sacraliza as suas águas, tornando a  sua envolvente mais luzidia e rica, tal qual ela se apresenta – verde e encantadora, pitoresca e idílica – em que o manso Lethes esculpe as margens, talhando-as com a sua arte, a arte mais natural e bela. Na frontaria da Igreja, por cima do óculo e por debaixo da Cruz, vislumbramos um belo painel de azulejos em tons de azul e branco onde Santo António surge como baluarte da esperança e da fé, essa que alimenta o Homem, acalmando os seus temores, as suas dúvidas e as suas angústias.

Não admira que todo esse cenário se funda com o rio tornando as suas águas azuis e límpidas. Os espíritos que por ali passam, procurando os caminhos do Mestre, vivem na tormenta de novos paradigmas. Hodiernamente, o Homem tende a estar mais longe de si mesmo, mais longe de Deus – o tempo escasseia – a vida escasseia. Todavia, o Minho é rico em símbolos da fé, em memórias da fé, nesse amor a Deus que se traduz na arquitetura, parecendo nunca se querer alienar dos dogmas ancestrais. Quiçá, essa seja a condição sine qua non, conferindo às gentes do Minho a sua coesão, a sua comunhão, lembrando as pobres almas que Deus não as abandona; pois, Deus é ubíquo.

Ermidas, Capelas, Igrejas, Conventos, Mosteiros e todo o tipo de construções dedicadas ao culto pulverizam o nosso território, tão rico e singular – celestial. Recordando o ilustre médico e escritor de Valença do Minho, José Augusto Vieira, é motivo para reiterar que o Minho – “é o jardim de Portugal” – berço da pátria amada, esculpido num belo dia de primavera, ao som dos pássaros, repleto de perfume das rosas, fazendo do Minho uma bonita rima, repleta de prosas.