“Cuidar do Monte do Faro é uma questão de teimosia e de vaidade”

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Hilário Correia, de 73 anos, dedica-se a cuidar e a promover o Monte da Senhora do Faro desde há cinco anos, já depois de se ter reformado da sua actividade profissional como técnico têxtil. Natural de Vila Nova de Famalicão, vive há 50 anos na cidade de Valença, onde encontrou o amor.
Hilário Correia foi desafiado por um amigo a entrar para a Confraria de Nossa Senhora do Faro. “Eu disse que só entrava se ele fosse comigo para a confraria”, admitiu o idoso, que é atualmente presidente desta confraria. “O problema das confrarias é que as pessoas desconfiam quando dão dinheiro. As pessoas querem ter a certeza de que o dinheiro é bem aplicado”, acredita o homem que nasceu na freguesia de Vermoim, Vila Nova de Famalicão. “Estou em Valença há 53 anos e sinto-me valenciano. Muitos valencianos nunca foram ao Faro, mas eu tive que ler e aprender a história deste local para conseguir responder aos visitantes”, realçou, acrescentando que cuida do Monte do Faro por “não gostar de se render e de perder”.  “É uma questão de teimosia e de querer fazer mais pelo Faro. Por isso, é também uma questão de vaidade”, vincou Hilário.
O septuagenário mudou-se, ainda jovem, para Valença quando o seu pai começou a trabalhar numa fábrica de fiação e tecidos na freguesia da Gandra, que, entretanto, já fechou portas em 1990. Hilário seguiu a mesma área profissional e foi técnico têxtil. Antes disso, e já depois de ter cumprido serviço militar, foi em Valença que Hilário Correia conheceu o grade amor da sua vida.
“Saí na noite de S. João e vi um grupo de cinco raparigas. Estava um rapaz com elas e eu, por acaso, tinha estacionado o carro atrás do dele. Elas costumavam tomar café num restaurante que eu frequentava e fui falando com a minha mulher”, contou. Namoraram três anos e, já casados, descobriram que, afinal, já se tinham encontrado anteriomente. “Há quem diga que vim atrás da minha mulher porque, na verdade, conhecia-a em 1968 num comboio que ia do Porto para Lisboa quando era militar. Lembro-me de ver uma rapariga e de lhe pedir a direção para escrever um postal. Fiz isso, mas nunca mais pensei nela”, contou.
“A minha mulher colecionava postais e a minha mãe quis ver. Descobriu o postal e reconheceu a minha letra. A minha mulher perguntou-me que postal era aquele e eu disse que sempre tinha achado que já a conhecia há mais tempo.  O postal confirmou isso. Há quem diga que esta história é muito bonita, mas eu acho que é uma coincidência. Eu podia nunca mais a ter visto”, constatou Hilário Correia, lembrando-se dos dois anos que passou em Angola para cumprir serviço militar. “Fui para Angola em 1968 e durante 33 meses vim 10 vezes a Portugal porque tive a vantagem de o meu pai poder pagar as viagens. Porém, eu fui contrariado para lá”, confessou, admitindo que não pisou “um centímetro de selva” durante o serviço militar. “Só peguei uma vez na espingarda e foi na recruta. Nesses meses eu era um furriel e tratava da logística. Mandava em meia dúzia e tinha meia dúzia a mandar em mim. Só que eles eram meus amigos”, contou o homem. Apesar de notar que morreram muitos homens na Guerra Colonial, Hilário Correia acredita que a guerra “fez crescer muitas pessoas”. “Muitos eram crianças mimadas e saíram de lá homens. Tinham que ter respeito, obedecer às ordens e ter disciplina. Tinham que se levantar a horas, fazer a barba…”, exemplificou. “Apesar de o meu pai sempre me ter ensinado a ter disciplina, eu também era mimado e fazia algumas patetices. Os meus pais sempre me deram tudo. Em 1972 eu já andava de BMW descapotável. Éramos 14 irmãos e muitos estudaram. Os meus pais tinham que estar bem calçados para criar isto tudo”, afirmou, recordando uma peripécia dos tempos da tropa. “Tinha deixado crescer muito o cabelo e um tenente disse para eu o cortar e se eu não cumprisse dava-me dois dias de detenção. Eu respondi que podia dar dois meses porque, assim, não fazia nada”, gracejou, afirmando que nunca se cruzou com ninguém de Valença em Angola. “Porém, um senhor que encontro nos jogos de hóquei diz que se cruzou comigo na tropa”, partilhou.
Hilário e a esposa casam em 1974 em Valença e tiveram três filhos. Quando o seu pai voltou para Vila Nova de Famalicão em 1981, Hilário seguiu as suas pisadas para trabalhar na área na sua terra natal. No entanto, acabou por regressar a Valença em 1985 para a empresa onde trabalhara anteriormente. “Eu até dizia: ou a empresa não presta ou o empregado é muito bom. Por isso, fui ficando sempre por Valença”, frisou.
Casado há 49 anos, Hilário Correia confessou que é feliz ao lado da sua mulher, que é dirigente da Associação Social e Recreativa dos Aposentados e Reformados do Concelho de Valença e que também foi  presidente da  Comissão de Proteção de Crianças e Jovens. “Ela já chegou à minha beira e disse: Põe-te de pé, que não estás sozinho. Recordo-me do dia em que ela foi homenageada por Valença. Ela disse:  Só posso fazer esta vida porque tenho uma ajuda invisível. Obrigada, marido”, recordou o homem que tem três filhos e cinco netos. “Foi a minha mulher que educou os filhos. Sei que não seria capaz de os educar tão bem”, acredita Hilário Correia.